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* Valter Frigieri

Muito tem se discutido a respeito da importância da produtividade. Cresce a percepção de que sem melhorarmos nossa produtividade, a economia brasileira estará limitada a um desempenho medíocre.

Sua importância em geral, e em particular na construção civil, torna necessário conceituar o termo de forma precisa.

Produtividade sempre pode ser calculada. É o resultado matemático de um numerador sobre um denominador. Trata-se de coisas simples como calcular quantos homens-hora foram gastos para produzir certa quantidade de produtos. Ou de quantas horas de trabalho foram utilizadas para construir uma edificação.

Os céticos podem dizer que a produtividade não se aplica à construção, já que as condições de produção variam muito.

Várias metodologias foram desenvolvidas e muito trabalho de campo já foi realizado para superarmos esse passo. De fato, as medições da produtividade brasileira na construção, comparadas à de países mais desenvolvidos, indicam que estamos com uma defasagem significativa.

Então como capturar esse potencial?

Vão aqui algumas reflexões:

1. Alinhar a produtividade com a competitividade de cada negócio. Parâmetros do negócio e do empreendimento precisam ser analisados.

Estou em edificações ou infraestrutura? Tenho padrões de repetição nos meus produtos? Como é o fluxo de caixa do meu empreendimento? Trabalho com mão-de-obra própria ou subempreitada? Qual o custo do atraso? Comando o processo de projeto ou apenas construo o que já foi especificado? Posso amortizar um dado investimento no empreendimento atual ou futuro?

Resumidamente, estamos falando que devemos entender o posicionamento da produtividade em um determinado negócio. Entender qual a contribuição que a produtividade dará para o resultado do negócio.

2. Tratar a produtividade de forma sistêmica. Envolver o máximo de atores no processo de melhoria.

A realização de um empreendimento envolve diversas empresas, cada uma com uma expertise específica. Como são vários atores trabalhando no mesmo produto, uma ação isolada irá repercutir no desempenho de outra.

Nesse sentido, coordenar a produtividade demanda a gestão desses diversos atores, de forma a garantir que as propostas e ideias de melhorias sejam avaliadas a partir de parâmetros gerais, associados à competitividade.

3. Produtividade diz respeito à cultura.

Você pode achar que sua posição de mando na empresa garante que suas ordens de melhoria da produtividade serão obedecidas. Isso é falso.

Há muitos anos, ao entrar em minha primeira obra, vindo da minha primeira experiência profissional em uma fábrica, me chamou a atenção a quantidade de trabalhadores que, naquele preciso instante, estavam parados. Olhei para o engenheiro que estava ao meu lado, e notei que para ele tudo estava normal.

Fui entendendo, com o tempo, que se o profissional que trabalha em sua empresa acha que é normal os tempos mortos, as esperas, as demoras, torna-se muito difícil ocorrer mudanças.

É fundamental o alinhamento cultural da empresa, o entendimento de que produtividade e competitividade são variáveis estratégicas do negócio e da própria carreira profissional.

4. Produtividade exige gestão.

As empresas fazem gestão de projetos, gestão da qualidade, gestão financeira, gestão de clientes, gestão do cronograma, mas não fazem gestão da produtividade.

Gestão da produtividade implica em estabelecer resultados esperados, medir o real, entender as variações, registrar boas e más práticas, discutir como melhorar.

Tudo isso parece difícil, mas cada um pode implementar a sua estratégia dentro das suas possibilidades.

Recentemente visitei um canteiro de obras em São Paulo e à medida que o gerente do empreendimento ia explicando o jeito que eles produziam, fui observando quanto de resultado estruturado eles já tinham conquistado ao longo dos anos. Foi bom constatar: usando materiais, serviços e sistemas disponíveis a todos no mercado.

Algumas semanas antes, também visitando outro canteiro, o engenheiro contava com satisfação os resultados de melhoria na produtividade da concretagem que eles tinham alcançado a partir de uma iniciativa da própria equipe da obra.

Dois exemplos, duas realidades distintas, uma nascendo de uma empresa que atua estrategicamente na produtividade, outra vinda de uma iniciativa pontual. Em comum, a percepção de que é possível melhorar a produtividade em qualquer nível de intervenção.

A iniciativa Do Mesmo Lado na Produtividade tem esse mérito: “jogar luz” sobre profissionais e empresas que fazem acontecer e, a partir de seus exemplos, mostrar que nosso setor é capaz de contribuir para o aumento da competitividade do Brasil.

* Valter Frigieri
Planejamento e Mercado na ABCP
Coordenador do Comitê de Produtividade (Do Mesmo Lado)